segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Práticas do Bem, Compartilhar e doar o pouco a quem não tem nada!

 


Alunos da Turma 1008


As ‘coisas simples’ nunca saem de moda,
assim como carinho, solidariedade e amor,
sempre nos encantam,
falando alto ao Coração!
(Sid Trombini)
 
Os alunos da Turma 1008, do C.E. Profª Sonia Regina Scudese estão ansiosos pelo início da I Campanha da Solidariedade a ser realizada no âmbito deste. Eles, desde o início do ano, se mostraram interessados em participar de um projeto deste tipo, de cunho social e de cidadania solidária.
 
Há tempo, eu estava esperando a oportunidade de desenvolver um projeto similar ao que coordeno, desde 2007, na escola da rede municipal em que leciono, voltado para arrecadação de donativos.
 
No ano passado, os alunos de uma turma se mostraram interessados, mas com o novo ano letivo, os mesmos foram distribuídos entre as novas turmas e, eu mesma, não os peguei. No entanto, neste ano, a Turma 1008 se mostrou interessada e motivada a abraçar tal compromisso. É muita responsabilidade movida por sentimentos de amor ao próximo, solidariedade e caridade. Fazer o bem acima de tudo!
 
Em uma das reuniões realizadas com os alunos ficou acordado que a Instituição beneficiária seria a Casa de Amparo à Criança com Câncer – São Vicente de Paulo, em Irajá. No entanto, após o recesso escolar, decidimos também ajudar outra Instituição, o Centro Terapêutico Maria Margarida (CTEMM), que trabalha com crianças e adolescentes especiais.
 
 "Um amigo me chamou
pra cuidar da dor dele,
guardei a minha no bolso...
E fui..."
Clarice Lispector

Práticas do Bem, I Campanha da Solidariedade de 2017...

Alunas da Turma 1701, da esquerda para direita,
Ana Carolina Amorim, Carla Cristina Amorim e Yasmin Soares Barbosa

Com tanta inversão de valores, ainda há aqueles que fazem a diferença, alimentando a vida com altruísmo, solidariedade e amor ao próximo...
 
As arrecadações da I Campanha da Solidariedade de 2017, da E.M. Dilermando Cruz, vão encerrar no final deste mês e estamos mobilizando a Comunidade Escolar, a fim de angariar mais donativos. 
 
No dia 09 deste mês, eu e as alunas Ana Carolina Amorim, Carla Cristina Amorim e Yasmin Soares Barbosa realizamos uma triagem com os produtos arrecadados e o resultado está bem abaixo da nossa meta, o que é um tanto frustrante...  
 
Até a data, acima citada, foram arrecadados:
242 Unidades de Gelatina em Pó;
02 Unidades de Gelatina em Pó (01 maracujá e 01 abacaxi);
10 Latas de Leite em Pó Integral;
10 Sacos de Leite em Pó Integral;
01 Saco de Cereal - Alimento/Milho.
 
Estamos nos empenhando para mudar tal quadro, mobilizando a todos por meio de diferentes estratégias: cartazes, visitas às salas de aula, comunicados no WhatsApp e no Facebook.  Estamos na reta final e não podemos desistir! 
 
Contamos com a participação de todos!
 
As alunas da Turma 1701 com os alunos da Turma 1301
(Professora Taciane)
 

Cais do Valongo e os Escravos Novos no Rio de Janeiro


 Cais do Valongo - Gamboa (RJ)
Foto do meu acervo particular
 
 
O Valongo entrou, então, para a história da cidade
como um local de horrores.
Nele, os escravos que sobreviviam à viagem transatlântica
recebiam o passaporte para a senzala.
Os que não sobreviviam tinham seus corpos
submetidos a enterro degradante.
Para todos, era o cenário tétrico do comércio de carne humana.
(CARVALHO, José Murilo de. Prefácio. In: PEREIRA, 2007:09)

Durante o Recesso Escolar de julho fui conhecer o Sítio Arqueológico do Cais do Valongo, localizado no bairro da Gamboa, na Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de um importante vestígio material do tempo do tráfico e da comercialização de escravos africanos na cidade.

Construído no início do Século XIX (1811), este se tornou o principal porto de desembarque dos chamados pretos novos no Rio de Janeiro e de todo o Brasil, quando comparado aos outros portos expressivos, do período colonial e imperial, de igual função no que se refere ao tráfico negreiro. 
 
 

 


Sítio Arqueológico do Cais do Valongo

Imagens do meu acervo particular (julho de 2017)

 


Trata-se de um registro físico, de grande relevância histórica, que remonta a um período de extrema barbárie que marcou a história do nosso país, assinalado por relações desiguais de poder estabelecidas entre dois grupos étnicos distintos, por muitos séculos, o branco colonizador e os pretos africanos, assim como os seus descendentes, sob o sistema escravista. Entrelaçando a história da América Portuguesa (Brasil) e da África Subsaariana 
 
História esta, que teve como cenário, a região do Valongo (o cais e toda sua área abrangente), no final do Século XVIII e início do Século XIX e, como protagonistas, os escravos africanos recém-chegados à cidade, os chamados “pretos novos” ou “escravos novos”.
 
Os liames que os unem perpassam na Freguesia de Santa Rita, a qual a região pertencia, envolvendo o tráfico negreiro, o desembarque de escravos africanos, a comercialização intensa e rentável com a venda dos mesmos e a destinação destes novos escravos, quer seja para a área rural quer seja para a área urbana.
 
Em 2011, durante as obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro (Projeto Porto Maravilha), o Cais do Valongo foi redescoberto e desenterrado após minucioso trabalho de escavação arqueológica, por uma equipe de pesquisadores, sob a responsabilidade da arqueóloga Tania Andrade Lima (Professora do Museu Nacional/UFRJ e Consultora da Archeos).
 
Em função de sua estrutura preservada e importância histórica ímpar, o mesmo teve a sua candidatura encaminhada e, no dia 09 de julho deste ano, ganhou o título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
 
“(...) o Cais do Valongo representa um testemunho
da diáspora africana sem igual no mundo,
 tanto por seu bom estado de preservação
e quantidade de escravizados recebidos
como por representar a continuidade física
e simbólica dos locais de partida já identificados
e tombados pela Unesco na costa africana.”
(VASSALO e CICALO, 2015:02)
 
No entanto, não temos nada a nos orgulhar - nem como cariocas e nem como brasileiros - quando o nosso imaginário vagueia, simultaneamente, ao tempo da escravidão e ao referido espaço, no Século XIX ou, antes mesmo, após a cidade do Rio de Janeiro tornar-se a segunda capital do Brasil (1763), quando o fluxo de escravos africanos se intensificou na cidade.  
 
E nem mesmo, em tempo real, quando nossos olhos curiosos miram o seu calçamento de pedra, remanescente daquela época...

Afinal, ele retrata um capítulo de uma longa história de intensa perversidade e desumanidade que marcou os períodos do Brasil Colonial e Imperial com o tráfico e a comercialização de escravos para a região Sudeste, mais especificamente, o Rio de Janeiro, sobretudo, com a transferência da capital do Brasil para a cidade (1763) e, no Século XIX, com a chegada da Família Real em 1808, que intensificou as importações e o comércio de escravos.
 
Como sabemos, o Brasil foi o país que mais traficou escravos africanos no mundo, foi o que manteve por mais tempo o seu comércio (por mar e por terras) e, também, foi o último a abolir a escravidão na América, em 1888.
 
De acordo com novos dados acerca do número de desembarque de escravos africanos em nosso território, divulgados pela Universidade de Emory (Atlanta, EUA), em 2015, o Brasil recebeu cerca de 4,8 milhões de escravos, sendo 2 milhões destinados para o Rio de Janeiro.
 
 "Por isso nenhuma outra região americana esteve tão ligada
ao continente africano por meio do tráfico como o Brasil.
O dramático deslocamento forçado, por mais de três séculos,
uniu para sempre o Brasil à África."
(ALBUQUERQUE e FRAGA FILHO, 2006, p 39)
 
Notadamente, a importância econômica e comercial do Rio de Janeiro se intensificou após a cidade tornar-se a sede de governo (capital da colônia), sob a conjuntura do novo ciclo econômico do Brasil, o ouro, descoberto na Capitania de Minas Gerais, em Goiás e Mato Grosso.

A sua proximidade às áreas de mineração, bem como a sua função portuária, fez com que a primeira capital da colônia, Salvador (desde 1549) não fizesse mais sentido no Nordeste (a queda da produção da cana-de-açúcar já era sentida devido à concorrência com açúcar do Caribe), sendo favorável a transferência da sede do governo para o Rio de Janeiro, o que foi feito em 1763.

Outro fator preponderante para sua transferência se deu em função de sua proximidade à região Sul, tendo em vista a necessidade de se ter um controle mais efetivo sobre a Colônia de Sacramento, a qual, além de sua importância econômica, era disputada com os espanhóis.
 
Tal conjuntura econômica (Ciclo do Ouro) junto com as atividades tradicionais e outras determinava a necessidade de um contingente maior de mão-de-obra escrava, tanto para suprir as minas de ouro e de diamantes (descobertos posteriormente) quanto para os engenhos da cana-de-açúcar ainda operantes e para as demais atividades ligadas à produção rural (pecuária e cultivos de alimentos).
 
Sendo assim, no caso específico do comércio de escravos do Rio de Janeiro, este abastecia o Sul e Sudeste tanto por via marítima quanto terrestre – atendendo a própria cidade, o Norte Fluminense, Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
 
A cidade do Rio de Janeiro, que exercia a função político-administrativa (sede do governo), e suas áreas adjacentes demandavam, cada vez mais, a mão-de-obra escrava, elevando o seu quantitativo após a chegada da Família Real, em 1808, a fim de atender o aumento dos inúmeros serviços e moradias (escravos urbanos). 
 
“Se o século XVIII vira florescer uma oligarquia fluminense
forjada na comercialização de africanos escravizados
para as zonas agrícolas e mineradoras
 da região sudeste da colônia,
a transferência da Família Real, a abertura dos portos em 1808
e as transformações urbanísticas do Rio haviam permitido
não só o fortalecimento político e econômico destas elites,
mas também aumento da propriedade escrava,
o que por sua vez atraiu uma nova ‘classe de proprietários’,
desejosa em fazer valer as vantagens de viver na capital.”
(FRAGOSO, 1998 apud SANTOS, 2013:16)
 
Além da comercialização dos escravos urbanos para a capital e adjacências, a grande massa de escravos de campo (ou de Eito) destinava-se à região de Campos de Goitacazes (Norte Fluminense) para onde eram direcionados ao trabalho nos canaviais, a outros cultivos (alimentos) e ao trato com a pecuária 

No Século XIX, uma nova região ganha destaque econômico, o Vale do Paraíba (rio Paraíba do Sul), passando a receber intensos fluxos de escravos oriundos da capital para o trabalho nas lavouras cafeeiras (Ciclo do Café).

 
 . A história da Região do Valongo... 
 
Para entendermos um pouco sobre o papel da região do Valongo, no contexto do comércio de escravos no Rio de Janeiro, devemos voltar ao tempo, pois antes da construção do seu cais, propriamente dito, o principal ponto de desembarque dos escravos africanos era realizado na praia da Piaçaba (no antigo Largo do Carmo ou do Paço, atual Praça XV), local onde foi construído o Chafariz do Mestre Valentim (Valentim da Fonseca e Silva), inaugurado em 1789 e que foi de grande utilidade pública em face do abastecimento de água à população e às embarcações que ali ancoravam.

Já a comercialização dos chamados “escravos novos” era feita na Rua Direita (atual Av. Primeiro de Março), próxima à Alfândega
 
 
Largo do Carmo (Praça XV) e o Chafariz do Mestre Valentim
(Aquarela de Richard Bates, 1808)
Imagem capturada na Internet
Largo do Carmo (Praça XV) e o Chafariz do Mestre Valentim (1865)
Georges Leuzinger - Acervo do IMS
 
O Largo do Carmo ou do Paço, como fora chamado no período colonial – entre outras denominações dadas à atual Praça XV de Novembro -  era a porta oficial de entrada da cidade, daí a sua importância histórica e, também, estratégica.

 
Pertencente à Freguesia da Candelária, cujos limites se estendiam da Ilha das Cobras ao morro do Castelo, a região do Largo do Paço (e seu entorno) consistia na parte mais antiga, nobre e movimentada da cidadeTendo grande importância econômica, sobretudo, por conta do comércio marítimo de exportação e de importação, bem como de entrada e comercialização de escravos africanos diretamente da África, bem como de outros pontos da costa litorânea brasileira.
 
Esta abrigava grandes estabelecimentos comerciais (armazéns de venda de escravos), várias residências, inclusive, dos comerciantes de escravos, comércio em geral, importantes repartições públicas, o Paço Imperial, a Cadeia etc. E foi por isso que o próprio desenvolvimento do espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro se deu a partir do Largo do Carmo ou do Paço (Praça XV).

Vale ressaltar, aqui, que embora, muitas fontes assinalem que a Família Real desembarcou neste cais (Praça XV), quando chegou ao Rio de Janeiro, no dia 08 de março de 1808, o historiador Milton Teixeira – citado por LUCENA (2015) – afirma que há registros históricos que confirmam que o desembarque deste e de sua comitiva foi em outro ancoradouro da mesma Freguesia, onde se localiza, atualmente, o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, na base do Morro do São Bento.

O fator principal que determinou a transferência do comércio dos escravos africanos da Freguesia da Candelária para a região do Valongo, pertencente à Freguesia de Santa Rita, é incerto, pois há divergências nas diferentes fontes de pesquisa utilizadas.

 

Alguns autores, com base nos registros de viajantes e cronistas de época apontam a questão de controle sanitário em razão da grande concentração de escravos na cidade e os riscos eminentes de contágio por doenças (moléstias) que muitos deles apresentavam, inclusive, contraída ainda no continente africano ou adquirida durante a longa viagem transatlântica ou, ainda, em terra firme “carioca” por conta da saúde debilitada, agravada pelas condições climáticas até o momento de sua venda.

 

Tais circunstâncias colocavam em sérios riscos à saúde dos moradores e transeuntes constantes da Freguesia da Candelária, que se sentiam temorosos com tais possibilidades.
 
Acerca disso, LIMA et all (2016:302) cita,
 
O desfile de negros seminus, esquálidos e pestilentos
no centro político, econômico, administrativo e religioso da cidade,
que tinha como epicentro o Paço dos Vice-Reis,
por certo trazia constrangimento e medo às elites,
receosas de serem contaminadas com suas doenças.
Por conta disso, era preciso remanejá-los para bem longe,
para um local de menor exposição e visibilidade,
onde não constituíssem uma ameaça
nem provocassem tanto desconforto.”

Outro fator mencionado, como determinante, incide nos constantes conflitos entre os traficantes, os atravessadores e os compradores de escravos, com envolvimento até das autoridades locais e o próprio rei de Portugal.

Tudo leva a crer que ambos fatores contribuíram para a proposta e decisão de transferência do comércio de escravos para uma região "fora dos limites da cidade". E, com isso, em 1779, o D. Luís de Almeida Soares Alarcão, o Marquês do Lavradio (Vice-Rei do Brasil, na época) transferiu o comércio dos escravos da parte nobre da cidade (Rua Direita) para a Região do Valongo
 
A região do Valongo compreendia a faixa do litoral carioca que se estendia da Prainha à Gamboa, indo da praia ao seu interior. Seu destaque econômico e social passou a crescer em razão de sua função e “relevância” no contexto histórico da cidade e do país, com a comercialização de escravos e, posteriormente, com o desembarque dos cativos, após as obras de infraestrutura no Cais do Valongo, visto que inicialmente só o ponto de comercialização havia sido transferido.
 
Com isso, o chamado “Complexo do Valongo” compreendia o mercado de escravos, composto por “lojas de carnes” (armazéns para exposição e venda de escravos), um lazareto (local de quarentena para os escravos doentes), a “casa de engorda” (armazém onde os escravos, debilitados pela longa viagem, eram mantidos e alimentados até chegarem a condições adequadas para venda) e um cemitério (cemitério dos Pretos Novos), que já funcionava desde 1769.  
 
Região do Valongo
Imagem capturada na Internet
 
Armazém ou loja de carne (comércio de escravos)
na rua do Valongo
Aquarela de Jean Baptiste Debret (1820-1830)
 
 Comércio de escravos na Rua do Valongo
 
 
O desembarque dos escravos novos não foi feito, inicialmente, no Cais do Valongo. Antes mesmo deste, outros ancoradouros existentes na praia do Valongo tiveram essa função. 
 
Na época, existiam diversos trapiches ao longo da praia do Valongo, os quais eram utilizados para embarque e desembarque de pessoas e mercadorias. De acordo com LIMA et all (op.cit.), a única referência sobre o desembarque dos escravos africanos consta em um documento, datado de 1811, com menção aos negociantes de escravos, no qual é relatado que os  ancoradouros do Poço e o da Boa Viagem serviam como pontos de desembarques dos cativos.
 
Por sua vez, quanto às atividades do Cais do Valongo, o que se tem registrado, segundo os referidos autores, é apenas uma declaração  – da mesma época – do Intendente Geral de Polícia da Corte e do Estado do Brasil, o Desembargador e Ouvidor, Paulo Fernandes Viana, datado de 30 de maio de 1811, no qual se atesta as obras de sua edificação, com a construção de rampas e o seu calçamento com pedras.
 
Segundo o mesmo, essas obras de “infraestrutura portuária” nesse trecho da praia do Valongo foi ordenada pela Alteza Real, o Príncipe Regente D. João.
 
Este, ao deixar a Intendência Geral da Polícia, reiterou a referida declaração, afirmando que:
 
fiz o Cais do Valongo no fim da rua deste nome
 com rampas e escadas para embarque,
que foi de suma utilidade por não haver em certas estações
local mais cômodo para embarques e desembarques,
e iluminei com lampiões o mesmo cais.” 
(LIMA op.cit.:306)

Notadamente, com o intenso comércio de escravos e após a operacionalidade do cais, a região do Valongo passou a se destacar economicamente, no Século XIX, já despontando como um dos locais mais movimentados do Rio de Janeiro
 
Firmando-se como grande centro de venda e de distribuição de mão-de-obra escrava africana de todo o Brasil. Segundo PEREIRA (2007), por volta de 1817, a região já contava com cerca de 34 grandes estabelecimentos comerciais, tendo entre esses, casas de importação e exportação.
 
Cais do Valongo, por sua vez, tornou-se o principal porto de entrada dos escravos novos no Brasil, superando em número de importações a outros portos da costa brasileira, como de Salvador e Recife.
 
De acordo com o PEREIRA (op.cit.), o dinamismo do  comércio na região impulsionou a sua expansão à direção norte da cidade.
 
“Logo que esses escravos chegam ao Rio de Janeiro,
são aquartelados em casas alugadas
para tal fim na Rua do Valongo, junto do mar.
Vêem-se ali crianças, desde os seis anos de idade,
e adultos de ambos os sexos, de todas as idades.
Eles jazem nús, expostos ao sol nos pátios, ou fora,
em volta das casas, ou separados segundo os sexos,
distribuídos em diferentes salas.
(...) O comprador verifica o vigor físico e a saúde,
ora apalpando o corpo todo, ora fazendo o negro executar
rápido movimento especialmente a extensão do punho cerrado.
Defeitos orgânicos ocultos, sobretudo a tão comum disposição
para catarata, é o que mais se receia nessas compras.
Feita a escolha, é determinado o preço da compra...”
(J.B. von Spix e C.F.P. von Martius apud HONORATO, 2008:78)

Em 1831, o Cais do Valongo foi desativado por pressão da Inglaterra, que se mostrava contrária ao sistema escravista e, consequentemente, ao tráfico negreiro (segundo os seus interesses comerciais, é claro!). No entanto, mesmo com as pressões inglesas e o seu fechamento, o comércio marítimo de escravos continuou na cidade, bem reduzido, sem dúvida, mas continuou, pois haviam vários trapiches (ancoradouros de embarcações) espalhados em sua costa litorânea, assim como em outros pontos do estado e do Brasil.  

Segundo os historiadores, tal situação conflituosa entre a proibição e o não cumprimento efetivo da determinação, deu origem à expressão, empregada até hoje, “lei para inglês ver”.
 
Em função disso, muitos traficantes passaram a explorar crianças como estratégia de manter a atividade rentável do tráfico (ilegal), uma vez que estas se mostravam menos resistentes à escravidão.
 
 Cais do Valongo (início do Século XX)
Imagem capturada na Internet
 

Em 1843, o Cais do Valongo (desativado) foi aterrado e um novo foi construído em seu lugar, mais largo e esteticamente embelezado, para recepcionar a princesa Teresa Cristina Maria de Bourbon (princesa das Duas Sicílias), ou melhor, a Imperatriz do Brasil, uma vez que ambos já haviam contraído matrimônio (casamento arranjado), por procuração, estando ela em Nápoles e ele no Brasil, no dia 30 de maio do mesmo ano.
 
Os dois só vieram a se conhecer, pessoalmente, no dia da chegada da Imperatriz à cidade do Rio de Janeiro, em 3 de setembro de 1843, quando a Fragata Constituição, que a trouxe, ancorou no Cais do Valongo.
 
O projeto de reforma do cais foi realizado, na época, pelo paisagista francês, August Grandjean de Montigny, que chegou à cidade em 1816, integrando um grupo de artistas e técnicos franceses que participavam da chamada Missão Artística Francesa, trazida a convite do Príncipe-Regente D. João.
 
No âmbito dessas reformas, além do ancoradouro ser renomeado de Cais da Imperatriz, o nome da rua Valongo também foi substituído, passando a ser chamado de rua da Imperatriz (Lima, 2013).
 
Permanecendo com esse nome até 1890, quando foi novamente rebatizada com o nome atual, Rua Camerino em homenagem ao herói da guerra do Paraguai, Francisco Camerino de Azevedo. 
No início do século XX, em 1911, em razão das reformas urbanísticas implementadas pelo, então prefeito da cidade, Pereira Passos, o Cais da Imperatriz também foi destruído e o local aterrado. Não havendo a devida preocupação – na época – de conservá-lo e nem expô-lo a céu aberto para visitação pública.
 
Um dos poucos monumentos de época que ainda se encontra preservado no local, na praça do Jornal do Comércio, e que tem referência à Imperatriz Teresa Cristina é o antigoChafariz da Imperatriz, construído em sua homenagem, em 1872.
 
Neste se observa uma placa - em sua coluna de granito - informando que naquele local existiu o Cais da Imperatriz, assim como também o Cais do Valongo.
 
Segundo fontes de pesquisa, essa coluna era composta de quatro bicas que jorravam água para um tanque retangular, situado em sua base. Hoje, no entanto, os mesmos não mais se apresentam no monumento.
  
Antigo Chafariz da Imperatriz
Imagem do meu acervo particular (julho de 2017)

 
Placa informativa na coluna do antigo Chafariz da Imperatriz
Imagem do meu acervo particular (julho de 2017)

Mesmo com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, que proibia o tráfico de escravos para o Brasil, o último fluxo ilegal de cativos que se teve registro data de 1872.
 
O que se verificou no Brasil, em relação aos escravos e seus descendentes, foi a sua valorização em decorrência da proibição do tráfico negreiro. Se antes, ser dono de escravos significava poder, com a proibição do tráfico negreiro, os senhores que os possuíssem aumentaram o seu prestígio e domínio.

A Abolição da escravatura só veio a ocorrer, após a assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel, no dia 13 de maio de 1888. Tal medida, no entanto, não significou a obtenção plena da liberdade dos escravos e de seus descendentes, uma vez que o seu processo não foi acompanhado por uma reforma social com a devida assistência e integração destes à sociedade. Pelo contrário, a eles foi negado o sentido pleno da palavra cidadania, mantendo-os à margem de seus direitos, ou seja, do direito às terras, de transitar livremente nas cidades, de escolher onde trabalhar, entre outros aspectos.

Os traços do jugo histórico da escravidão a partir da construção de sua imagem negativa e, também, a existência de outros interesses por parte das elites brancas vão respaldar esse total descaso a estes, promovendo a sua exclusão social e incentivando a prática discriminatória, sendo as raízes das desigualdades sociais e o racismo (explícito e camuflado) presentes até os dias de hoje.

Nada fácil, para aqueles na condição de libertos e, ao mesmo tempo, acorrentados, presos ao antigo sistema escravista, opressor e, continuamente, desumano. Daí a sobrevivência, no pós-abolição, ter continuado a ser uma batalha constante e difícil para os negros libertos... 

Em 2013, no Dia da Consciência Negra (20/11), o Cais do Valongo ganhou o título de Patrimônio Cultural da cidade do Rio de Janeiro, pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).
 
Neste mesmo dia, cinco pontos históricos da região, no âmbito dos bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo, passaram a fazer parte do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana, ou seja, além do Cais do Valongo, há o Largo do Depósito (onde era realizada a maior parte da comercialização de escravos), os Jardins Suspensos (local das antigas “casas de engorda” dos escravos), o Cemitério dos Pretos Novos, a Pedra do Sal (região com uma grande rocha, assinalando o centro da chamada Pequena África, onde os escravos e, depois, os libertos se reuniam para realizar cultos e festividades com samba e capoeira, bem como celebrar seus ancestrais) e o Centro Cultural José Bonifácio (maior centro de referência da cultural afro-brasileira do país).
 
 
Cais do Valongo
Imagens do meu acervo particular

 
FONTES DE PESQUISA

 . Cais do Valongo é candidato a Patrimônio da Humanidade. Portal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
Disponível em: Portal IPHAN
 

. HAAG, Carlos. Ossos que Falam. Revista de pesquisa da Fapesp. 2011

Disponível em Pdf em: Revista FAPESP

 

. HONORATO, Cláudio de Paula. Valongo: o mercado de escravos do Rio de Janeiro, 1758 a 1831. Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto de Ciências Humanas e Filosofia – Departamento de História, RJ, 2008.
Disponível em Pdf em: Tese de Mestrado/História - UFF
 
. LIMA, Tania Andrade; SENE, Glaucia Malerba; SOUZA, Marcos André Torres de. Em busca do Cais do Valongo, Rio de Janeiro, Século XIX. Anais do Museu Paulista. v. 24. n.1. 2016.
 
. LUCENA, Felipe. História da Praça XV.
Disponível em: Site Diário do Rio
 
. MICELI, Bruna Santos. O desenvolvimento do espaço urbano do Rio de Janeiro: principais observações a partir do Paço da Cidade. Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza – CCMN; Laboratório de Cartografia (GEOCART), Departamento de Geografia - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2011.
Disponível em Pdf em: Simpósio/UFMG
 
. PEREIRA, Júlio César Medeiros da Silva. À flor da terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro : Garamond: IPHAN, 2007. 208p.
Disponível em Pdf em: Garamond Universitária
 
. SANTOS, Ynaê Lopes dos. Tornar-se Corte: Trabalho Escravo e Espaço Urbano no Rio de Janeiro (1808-1815). Revista de História Comparada, Rio de Janeiro, 7, 1: 262-292, 2013.
Disponível em Pdf em: Revista de História Comparada
 
. VASSALO, Simone; CICALO, André. Por onde os Africanos chegaram: O Cais do Valongo e a Institucionalização da Memória do Tráfico Negreiro na Região Portuária do Rio de Janeiro. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 21, n. 43, p. 239-271, 2015
Disponível em Pdf em: Horizontes Antropológicos/Scielo